Eu e Rejane estávamos loucos para namorar. Universitários, a caixa estava tão baixa que não dava para pagar o motel mais barato da cidade. Nem mesmo se dividíssemos as despesas (oh céus!). Por este motivo, a única solução que encontramos foi subir as Paineiras até o primeiro mirante, para namorar em paz.Naquela época (início dos anos 80), a cidade não apresentava os perigos que hoje obriga a população a ficar ilhada em suas casas. Não havia tanto problema namorar dentro do carro. Por isso, ficamos à vontade, admirando a paisagem e logo, dos beijos passamos ao amasso e daí a outras funções.
Não percebemos o tempo passar. Papo vai, papo vem, vira pra cá, vira pra lá e coisa e tal... o tempo passou. Imagina o tamanho do susto que tomamos ao escutar as batidas na janela da minha velha e querida Variant ocre: Toc toc toc.. Três, quatro vezes...
Esfreguei a mão no vidro pra desembaçar e vi um cana, apontando sua lanterna pro interior do veículo enquanto outro, parado ao seu lado anotava a placa do carro. Meu coração disparou! Bati na janela pra avisar que eu já sabia da presença deles enquanto tantava vestir a calça e, ao mesmo tempo pedir calma pra Rejane e dizer pra ela ficar dentro do carro.
Abri a porta e saltei. Ainda estava um pouco tonto, devido ao vinho tinto e aos beijos. Mas consegui me ajeitar e chegar perto dos caras.
"- Boa noite..."
"Boa noite", trovejou um deles. "- Documentos do veículo!"
Mostrei.
"Quero ver os seus documentos também!" esbravejou.
Mostrei, com um sorriso no canto da boca...
E a dura continuou, pagando geral:
"-Isso é lugar público. Não é lugar pra fazer o que vcs estavam fazendo! Posso levar vocês dois pra Delegacia se entender com o delegado! Vcs tem que ir a um motel!"
Eu, totalmente sem graça, comecei a me justificar:
"- Sabe o que é, seu guarda, estou caído de grana... estudante... se eu tivesse dinheiro não estaríamos aqui, com certeza! Além disso, não havia ninguém aqui."
Numa tentativa desesperada, sem mais nenhum argumento convincente (mas certo de que não estávamos ofendendo ninguém com o nosso namorico), pedi com toda a cara de pau de Deus me deu:
"- Libera a gente aê, seu guarda... ninguém viu... Deixa a gente ir!"
Naquele momento os caras sentiram que não iriam ganhar nada além de um obrigado e disseram pra gente descer na frente que eles iam nos escoltar até os limites da floresta.
Assim foi feito. Entrei no carro e enquanto tentava fazer o possante pegar olhei pra Rejane que ria da situação sem graça. Ri também e o carro pegou. Demos tchau pros zelosos servidores do Estado e começamos a descida, escoltados e rindo pra caramba!