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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Banda afiada e faca amolada

Acidente 1983 - Mala, Guto, Zeca e ScubiPubliquei no Blog do Lobo o slide show da música "Conferência de Havana" que o Acidente gravou no "Fim do Mundo". seu segundo disco independente, lançado em 1983. Nessa música, tivemos a parceria do então baterista da banda, Baster Barros.

O Baster era um músico muito competente, um dos melhores bateristas que conheci e me deixou muito animado pois quando o conhecemos ele estava sem banda e vestiu a camisa do Acidente, chegando a pintar a logomarca da banda no bumbo da bateria. Ainda mais: hábil carpinteiro, montou um ótimo estúdio onde passamos a ensaiar sem incomodar os vizinhos.

Estávamos ensaiando músicas novas e nosso repertório crescia sem parar. A banda estava afiadíssima e o Malária comaçava a pensar no novo disco. Em meio a essa efervescência, veio a boa nova: Baster ia ser papai!

No entanto esta nova etapa trouxe novas responsabilidades e preocupações em sua vida. Como iria conseguir sustentar sua família, uma vez que o Acidente raramente se apresentava ao vivo e, mesmo assim, seus shows não rendiam muito?

Me lembro bem da vez que chegamos para mais um ensaio e Baster lançou a notícia que aquele seria seu último ensaio com o Acidente. A justificativa: seu irmão Guto - excelente guitarrista - estava voltando dos EUA para, juntamente com ele, Odeid e Alice Pink Pank formarem Os Ronaldos com Lobão e iniciarem uma carreira curta, mas bem sucedida, com show nos States e disco nas rádios, contratados pela RCA Victor.

Era o fim dos lanches de sanduba de presunto bem servidos com chopinho gelado no bar do Manolo e foi o fim de uma fase em que acreditei que poderíamos deslanchar como banda. Fazer o quê?

Exatamente o que fizemos. Malária convidou mais uma vez o amigo Zeca Pereira (que era o batera anterior e antes mesmo do Acidente existir, tocara com Mala e Guto Rolim na Banda Só Por uma Noite), amigo de longa data e fomos à luta para gravar o Fim do Mundo, que ficou ótimo e contou com um dos melhores engenheiros de áudio do Brasil, o Mr. Grammy, Éverson Dias. Para gravar o solo de Conferência, o convidado foi o ótimo Rogério Meanda (foto) que depois de tocar com Cazuza atualmente acompanha a Blitz.

E o resto é história!


Conferência de Havana
Paulo Malária, Helio Jenné, Raul Branco e Baster Barros



Músicos:
Paulo Malária: teclados e voz;
Helio Jenné:
Guitarra base e vocal;
Guto Rolim:
baixo;
Zeca Pereira:
bateria;
Convidado:
Rogério Meanda: guitarra solo

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Declaração em forma de canção

Foto: Nina Victor

Aluno da Cultura Inglesa, achava um barato estudar lá, naquele ótimo estabelecimento situado na Tijuca, em terreno arborizado.

Aquela filial era composta por três casas de dois andares e tinha uma biblioteca fantástica.

Além disso, a minha turma estava repleta de meninas bonitas e, entre todas, uma em especial cativou minha atenção. Ela era uma gracinha e suas amigas a chamavam de Pingo. Nossos olhares se cruzavam a todo instante... uma tentação!

Completamente entregue àquela paixão adolescente ainda não declarada, coloquei meus sentimentos no papel e compus uma música para ela, onde cantava o seu nome e a chamava para namorar, de uma maneira muito poética.

Uma tarde, cheio de atitude, pensei com meus botões:
"- De hoje não passa!" e levei o violão para a aula de inglês.

Quando cheguei, a turma ficou alvoroçada! Minhas colegas acharam ia ter cantoria. Mas só uma escutaria minha voz naquele dia.

No final da aula, chamei-a pelo braço e confidenciei perto do seu ouvido:
"- Pingo, fiz uma música pra você. Quer escutar?"
Nessa hora, meu coração batia com força.
Ela disse sim!

Fomos para um local mais tranqüilo, ali mesmo no pátio da Cultura e, à meia luz - o ambiente estava perfeito - tirei o violão do 'case' e após uma afinação rápida, comecei a tocar.

Toquei, toquei e toquei. Caprichei no vocal e tentei colocar todo o meu sentimento na frase "Pingo de orvalho matinal, sacia minha sede grande com seu amor natural",

Quando terminei a execução, olhei e ela estava sorrindo.
Pensei "- Oba, vou me dar bem!"

Ela falou de forma muito carinhosa:
"- Helinho, a música é uma gracinha, obrigada, adorei! Mas agora vou ter que encontrar meu namorado e já estou atrasada!"

Tóim... Nunca enfiei a viola no saco tão rápido! Mas de certa forma, eu sabia. Afinal, um cara romântico geralmente ganha um não.

Fui pra casa triste, mas satisfeito por ter cumprido aquilo que tinha me proposto a fazer: mostrar a música para a gatinha que trazia no olhar um adeus.

Tempos depois, a música fazia parte do repertório fixo do Acidente e em 1981 entrou no primeiro disco da banda, chamado "Guerra Civil".

Caso queira me dar a honra de escutar a gravação, clique aqui!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Acidente deflagra "Guerra Civil"

Acidente em 1981 era Paulo Malária, Helio Jenné, Zeca Pereira, Fernando Sá e Guto Rolim: rock independente deflagra Guerra CivilEm 1982 o rock and roll ainda não tinha virado moda mas estava começando a botar a cabeça de fora. Era o meu mote e a minha razão de viver. Minha e dos companheiros de banda.

Em 1981 a banda de rock Acidente havia lançado o LP "Guerra Civil", seu primeiro álbum. Independente até o osso, diga-se de passagem!

Sem qualquer tipo de patrocínio ou apoio cultural o Acidente só gravou esse vinil graças ao esforço e empenho pessoal do meu amigo e parceiro Paulo Malária, que sonhou, vislumbrou, batalhou e amealhou cada centavo para essa idéia se tornar realidade (assim como todas as outras nove produções da banda).
Pois bem, o disco ficou pronto! E agora? Tínhamos alguns shows previstos mas o "momento histórico" (para nós era) pedia mais, muito mais! As rádios só funcionavam à base de jabá (grande novidade) e os jornais nos restringiam aos tijolinhos dos segundos cadernos. Não havia (e ainda não há) espaço para os independentes!

Dispostos a mostrar ao mundo que o Acidente havia enfim lançado um LP com 12 sensacionais músicas inéditas e que iría balançar as estruturas musicais do Brasil, fomos à luta.

Cada um da banda se dedicou como pôde para divulgar esse grandioso fato. Até que uma bela noite, saindo de uma jam session, Mala, eu e mais três amigos descolamos um colorjet preto e resolvemos anunciar nos muros da cidade maravilhosa a notícia do ano: "ACIDENTE DEFLAGRA GUERRA CIVIL!!!"

Acho que hoje isso seria "café pequeno" diante de tanta barbaridade que se acumula a cada dia nos noticiários e também pelo estado deplorável da cidade do Rio de Janeiro, em que não há um só espaço sem pichações grotescas.

Mas em 82 a situação era outra e nossa pichação nos muros do bairro da Urca não foi bem recebida pelos canas do bairro que, provavelmente chamados por algum morador, estacionaram a joaninha e recolheram a galera para o posto local da PM.

Foram momentos de intimidação, medo e ameaças. Até explicarmos que "Guerra Civil" era apenas o nome do disco de uma banda de rock... passamos intermináveis horas de pavor. Por fim, os canas se contentaram em apreender nosso spray e nos liberaram, com um sermão.

A banda não aconteceu (como previmos), mas fizemos diversas apresentações, gravamos outros discos e os muros da Urca continuaram a alardear silenciosamente durante alguns anos o fato raro na história da música carioca: "Acidente deflagra Guerra Civil"...


Clique Aqui
para fazer download das músicas - obra completa, todos os discos.
(a senha é ACIDENTE)

Foto da banda: Carlão Limeira